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A moeda de prata que o rei Requiário assinou em Braga

Por volta de 449, um rei germânico da Galiza cunhou prata com a própria ordem escrita no verso

Oficina de moeda em Braga, capital do reino suevo, por volta de 449

Braga, capital do reino suevo, século V

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A LINHA DO TEMPO

406, os suevos cruzam o Reno → 409, entram na Hispânia → 411, recebem a Galécia por sorteio → 439, Réquila toma Mérida → 448, Requiário assume o trono → por volta de 449, a prata assinada em Braga → 456, derrota no rio Órbigo → 561, primeiro Concílio de Braga → 585, Leovigildo anexa o reino

Braga fica a cerca de 50 quilômetros ao norte do Porto, num planalto a uns 190 metros de altitude, entre os vales do Cávado e do Este. Das colinas em volta se avistam as serras do Minho, verdes o ano inteiro por causa da chuva que vem do Atlântico.

Os romanos chamavam a cidade de Bracara Augusta (Braga de Augusto) e fizeram dela a sede da Galécia, província que cobria o noroeste da Península Ibérica: a Galiza espanhola, o norte de Portugal e parte das Astúrias e de Leão.

Por volta de 449, numa oficina da cidade, alguém gravou um cunho (o molde de metal que imprime a moeda) com uma frase nova. No anverso, a face da frente, ficou o retrato do imperador Honório, como mandava o costume. No verso, em volta de uma cruz, entrou a inscrição IVSSV RICHIARI REGES (por ordem do rei Requiário).

A moeda é uma síliqua, pequena peça de prata que circulava no Império Romano do Ocidente. Até ali, os reis germânicos que governavam terras romanas cunhavam em nome do imperador, sem assinar. Requiário, rei dos suevos, foi o primeiro do Ocidente a escrever o próprio título no metal.

Os suevos eram um povo germânico que tinha atravessado o Reno pouco mais de 40 anos antes, ao lado de vândalos e alanos. Chegaram à Galécia como invasores e acabaram fundando ali o primeiro reino germânico da península, com capital em Braga.

O reino durou até 585, quando Leovigildo, rei dos visigodos de Toledo, entrou na Galécia, prendeu o último rei suevo e incorporou o território ao próprio domínio.

Para entender por que uma moeda assinada marca o auge desse reino, é preciso seguir os suevos desde o rio que eles cruzaram no inverno.

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I  O Estrato

O rei que assinou a prata

Na última noite de 406, segundo a tradição das crônicas, um grupo de povos atravessou o Reno perto de Mogúncia, a atual Mainz, na Alemanha. Vinham vândalos, alanos e suevos, estes saídos das terras entre o Danúbio e o Elba.

Os grupos saquearam a Gália por quase três anos e, em 409, passaram os Pireneus. Em 411, segundo Idácio, bispo de Aquae Flaviae (a atual Chaves, em Portugal), os invasores dividiram a Hispânia por sorteio, e a Galécia coube aos suevos e a uma parte dos vândalos.

Do sorteio ao reino

O primeiro rei suevo conhecido na península foi Hermerico, que governou a partir de Braga por cerca de três décadas. Os vândalos seguiram para o sul e, em 429, cruzaram para a África, deixando a Galécia só para os suevos.

O filho de Hermerico, Réquila, levou o reino para fora do noroeste. Em 439 tomou Mérida, capital da Hispânia romana, e em 441 entrou em Sevilha. Por alguns anos, os suevos mandaram em quase toda a metade ocidental da península.

Requiário herdou esse reino em 448. Era filho de Réquila e trouxe duas novidades: era católico, quando quase todos os reis germânicos seguiam o arianismo (a doutrina de Ário, que negava a Cristo a mesma natureza do Pai), e casou com uma filha de Teodorico I, rei dos visigodos.

Requiário pôs o próprio título na prata enquanto o imperador ainda aparecia na outra face.

A assinatura no verso

A síliqua de Braga mostra um rei que queria as duas autoridades ao mesmo tempo. O rosto de Honório garantia que a moeda seria aceita por quem conhecia o padrão romano. A frase no verso avisava quem tinha mandado cunhar.

Honório já estava enterrado havia mais de duas décadas quando a moeda saiu, e os cunhadores copiaram o retrato de peças antigas. O detalhe mostra que a imagem servia de marca de confiança, sem relação com o governante do dia.

Requiário usou o poder que a prata anunciava. Saqueou a região de Saragoça e a Tarraconense, no nordeste, terras que Roma ainda controlava. Em 455, com o Império do Ocidente em crise, os visigodos de Teodorico II, cunhado dele, receberam de Roma a tarefa de contê-lo.

Em 5 de outubro de 456, os dois exércitos se enfrentaram junto ao rio Órbigo, perto de Astorga. Os suevos perderam. Requiário fugiu para o litoral, foi capturado em Portucale, a atual cidade do Porto, e executado em dezembro daquele ano.

 

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II  O Padrão

O vizinho que fala a mesma língua

A derrota no Órbigo não acabou com os suevos. Acabou com a dinastia de Requiário. Durante anos, chefes rivais disputaram o trono, e Idácio, que escrevia de Chaves, registra o reino dividido em facções que saqueavam as próprias cidades.

Por volta de 466, o rei Remismundo se aliou aos visigodos e aceitou o arianismo deles, levado por um missionário chamado Ajax. O reino que tinha sido o primeiro católico entre os germânicos trocou de credo para agradar ao vizinho.

O mesmo destino na Borgonha

Ao norte dos Pireneus, outro povo germânico seguiu uma trilha parecida. Os burgúndios fundaram um reino no vale do Ródano, com sede em Lyon e Genebra, e o rei Gundobado mandou escrever uma lei própria por volta de 500.

O reino burgúndio também copiou Roma, também viveu ao lado de um vizinho germânico mais forte e também caiu para ele. Em 534, os filhos de Clóvis, reis dos francos, venceram o rei Godomar e repartiram a Borgonha entre si.

Como o vizinho engole o reino

Os casos da Galiza e da Borgonha repetem uma sequência:

1. O reino pequeno copia as instituições do império em declínio: moeda, lei escrita, bispos e cidades romanas.

2. O vizinho maior copia as mesmas instituições, só que com mais terra, mais tropa e mais impostos.

3. Quando o império some, os dois reinos ficam com estruturas parecidas, e trocar de rei vira ajuste de administração.

O Espelho: o reino suevo se tornou fácil de anexar porque já funcionava como os visigodos funcionavam.

Os últimos reis de Braga

No século VI, os suevos voltaram ao catolicismo. Martinho de Dume, monge nascido na Panônia, na atual Hungria, chegou à Galécia por volta de 550 e fundou um mosteiro em Dume, ao lado de Braga. Depois virou bispo da cidade.

O rei Miro, que reinou a partir de 570, enfrentou Leovigildo e acabou obrigado a jurar lealdade a ele. Morreu em 583, e o filho Eborico perdeu o trono no ano seguinte para Andeca, nobre que casou com a viúva de Miro.

Leovigildo usou o golpe como pretexto. Em 585 invadiu a Galécia, prendeu Andeca, mandou raspar a cabeça dele como sinal de entrada forçada no clero e o despachou para Beja, no sul de Portugal. Um rebelde chamado Malarico tentou reerguer o reino e foi preso.

III  O Arquivo

Um bispo, um monge e uma moeda

Quase tudo o que se sabe do reino suevo vem de poucas fontes. A primeira é a crônica de Idácio, bispo de Chaves, que narra os fatos de 379 a 468 e viu de perto as invasões, os saques e a queda de Requiário.

A segunda são as atas dos concílios de Braga, reuniões de bispos realizadas em 561 e 572. A do segundo concílio foi presidida por Martinho de Dume e mostra uma igreja católica organizada, com dioceses de Lugo a Coimbra.

O silêncio de oitenta anos

Idácio termina a crônica em 468. A partir dali, por quase oitenta anos, nenhum texto conhecido registra os reis suevos. Não se sabe quem governou Braga entre o fim do século V e a chegada de Martinho, nem como o reino passou do arianismo de volta ao catolicismo antes dos concílios.

Gregório de Tours, bispo e cronista dos francos, conta que o rei Carriarico se converteu depois que relíquias de São Martinho curaram o filho dele. Os historiadores tratam a história com cautela, porque nenhum outro texto confirma esse rei.

A terceira fonte é a síliqua. O exemplar conhecido, com a inscrição de Requiário e as letras BR, lidas como a marca de Braga, está no Gabinete das Medalhas da Biblioteca Nacional da França, em Paris.

A conta do fim

Isidoro de Sevilha, bispo visigodo, escreveu a história dos suevos por volta de 624 e encerrou o relato com a anexação:

“O reino dos suevos, destruído, passa aos godos, e durou cento e setenta e sete anos.”

Isidoro de Sevilha, História dos Suevos, por volta de 624.

A conta de Isidoro parte de 409, a entrada na Hispânia, e chega a 585, a prisão de Andeca. Ele escrevia a serviço da corte de Toledo, e a frase registra a versão dos vencedores, que tratavam a Galécia como herança natural dos godos.

Os suevos não sumiram da terra. Continuaram vivendo na Galiza e no norte de Portugal, falando latim com os vizinhos e casando com eles. A língua germânica deixou poucas palavras e alguns nomes de lugar, como Suegos, na Galiza.

Fica a pergunta para você: que parte do seu trabalho já é tão parecida com a de quem está ao lado que trocar o seu nome pelo dele não faria diferença para ninguém?

A síliqua de Braga segue numa gaveta do gabinete de Paris, a uns 1.200 quilômetros da cidade onde foi cunhada. Na face da frente, o imperador Honório; no verso, em volta da cruz, a ordem de um rei suevo que governou a Galécia por oito anos e foi o primeiro a assinar a própria prata.

 
 

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Na moeda de prata cunhada em Braga por volta de 449, o anverso trazia o retrato de qual imperador romano, já morto havia mais de duas décadas?

AValentiniano III
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