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A máscara de ouro de 1.500 anos numa caverna do Mustang

Nas falésias do Alto Mustang, no Nepal, uma tumba de Samdzong guardou por 1.500 anos um rosto de ouro e prata

Cavernas cavadas na falésia ocre do Alto Mustang

Samdzong, Alto Mustang, Nepal, séculos III a VI

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A LINHA DO TEMPO

Séculos III a VI, tumbas cavadas no paredão de Samdzong → século X, famílias passam a morar nas cavernas → 1380, Ame Pal funda o reino de Lo → 1992, o Nepal abre o Alto Mustang a estrangeiros → 2010, a escavação acha a máscara de Samdzong

A quase 4.000 metros de altitude, no Alto Mustang, a faixa do Nepal que avança como uma cunha sobre o planalto tibetano, o rio Kali Gandaki corre num cânion de arenito ocre. Da trilha, no fundo do vale, se veem os paredões furados por fileiras de buracos escuros, uns sobre os outros, como janelas de um prédio sem escada.

Os buracos são cavernas cavadas à mão. Muitas ficam dezenas de metros acima do leito do rio, em pontos onde hoje só se chega com corda, grampo e capacete. São milhares, espalhadas pelos vales do antigo reino de Lo, e nenhum texto antigo conta quem começou a abri-las.

O vento seco e a erosão comeram as bordas dos penhascos ao longo dos séculos. As trilhas e as escadas que levavam às grutas caíram, e vários conjuntos ficaram ilhados na parede, sem caminho de subida nem de descida.

Os moradores das aldeias sabiam que havia ossos lá em cima. Pastores contavam de crânios vistos na boca das grutas, e a tradição local atribuía as cavernas a gente de antes do budismo, de um tempo sem nome.

Em 2010, uma equipe internacional chegou a um desses buracos perto da aldeia de Samdzong, junto à fronteira com a China. O trabalho era dirigido pelo arqueólogo americano Mark Aldenderfer, da Universidade da Califórnia em Merced, e a rota na rocha era aberta pelo alpinista Pete Athans.

Numa câmara funerária, debaixo de terra e pedras caídas do teto, apareceu um rosto de metal. Era uma máscara fina de ouro e prata, com olhos, nariz e boca em relevo, feita para cobrir a cabeça de um morto.

A datação por radiocarbono feita pela equipe de Aldenderfer pôs o enterro entre os séculos III e VI depois de Cristo. A máscara passou uns 1.500 anos no escuro, num lugar onde nenhum saqueador conseguiu subir.

O Estrato desce pela corda até a câmara de Samdzong e conta como ela foi cavada.

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I  O Estrato

O poço dentro do paredão

A tumba recebeu da equipe o nome de Samdzong 5. A boca abria na face da falésia, e dali um poço vertical descia pela rocha até câmaras escavadas no arenito, onde os corpos foram deitados.

Quem cavou o poço trabalhou com ferramentas de pedra e de metal, pendurado num paredão sem chão em volta. O acesso original provavelmente vinha de cima, por trilhas e escadas de tronco que a erosão levou embora.

A subida de 2010 repetiu o caminho às avessas. Athans fixou cordas a partir do alto da falésia, desceu até a boca e alargou a passagem com cuidado, porque o arenito do Mustang esfarela com a mão.

Cada balde de terra retirado da câmara subia pela corda e era peneirado no alto do paredão. Pedaços de osso, contas e fios de tecido saíam dessa peneira, um a um, e eram registrados ainda sujos de terra.

Nas duas maiores cavernas de Samdzong, os escavadores acharam os restos de 27 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, segundo a reportagem de Michael Finkel publicada pela National Geographic em 2012 sobre a expedição.

O rosto de metal

A máscara é pequena, do tamanho de um rosto adulto, feita de folha de ouro batida com partes de prata. Os traços aparecem em relevo: sobrancelhas, olhos abertos, nariz reto e uma boca fechada, contornada de vermelho.

Pontos nas bordas indicam que a peça era costurada a um tecido. O conjunto cobria a cabeça do morto e dava a ele, debaixo da terra, um rosto que não apodrecia.

Máscaras funerárias de metal desse tipo aparecem em túmulos da elite em várias regiões do Himalaia e da Ásia Central no mesmo período. A peça de Samdzong ligou o vale isolado a um costume que corria por toda a cordilheira.

Os mortos de Samdzong desceram para a câmara com objetos vindos de centenas de quilômetros.

O sal e o vidro

Junto aos corpos havia contas de vidro, peças de cobre, um caldeirão de bronze, armas de ferro, copos de bambu e restos de seda. Nenhum desses objetos se fazia no vale.

As contas e a seda chegaram por rotas de caravana. O Kali Gandaki é um dos corredores mais baixos para atravessar a cordilheira, e por ele o sal do Tibete descia em lombo de iaque e de mula, enquanto grãos e tecidos da Índia subiam no sentido contrário.

Quem controlava a passagem cobrava pedágio e enriquecia. A máscara de ouro, as armas e o vidro estrangeiro dizem que os mortos de Samdzong pertenciam a esse grupo: famílias de chefes que viviam do tráfego no vale e queriam ser enterradas acima dele.

 

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II  O Padrão

Cemitério, casa e esconderijo

As cavernas do Mustang não tiveram um uso só. Os arqueólogos que trabalham na região separam a ocupação em fases, e cada fase deixou um tipo de vestígio diferente na mesma rocha.

As três vidas da rocha

A sequência aceita hoje tem três momentos:

1. Tumbas, nos séculos em torno do início da era cristã: poços e câmaras como Samdzong, com corpos, caixões de madeira e oferendas.

2. Moradias, a partir do século X: famílias inteiras passam a viver na rocha, com fogões, celeiros e cômodos ligados por passagens internas, às vezes em quatro ou cinco andares.

3. Celas de monges e esconderijos, até o século XV: lugares de meditação budista e depósitos de objetos de valor em tempo de guerra.

O tibetólogo Charles Ramble, de Oxford, que estuda os documentos do Mustang há décadas, liga a fase das moradias aos conflitos entre os pequenos senhores do vale. Morar a dezenas de metros do chão, com a escada recolhida à noite, protegia a família e o estoque de grão de um ataque vindo da trilha.

Depois do século XV, quase todos desceram. As aldeias passaram a ocupar o fundo do vale, perto da água e dos campos de cevada, e as cavernas viraram pasto de pombo, depósito de feno e assunto de lenda.

A mesma parede serviu de cemitério, de casa e de cofre, em épocas separadas por séculos.

Os primeiros escavadores

Samdzong não foi o primeiro sítio aberto na região. Nos anos 1990, um projeto conjunto do Departamento de Arqueologia do Nepal com pesquisadores alemães escavou as tumbas de Mebrak, perto da aldeia de Kagbeni, e achou caixões de madeira com corpos acompanhados de oferendas.

Os caixões de Mebrak e os poços de Samdzong mostram o mesmo gesto: guardar o morto alto, longe da enchente do rio, dos animais e dos vizinhos que pudessem mexer no túmulo.

Gente de falésia em outros lugares

O gesto se repete em outros paredões do mundo. Nas falésias de Bandiagara, no Mali, o povo que os dogons chamam de Tellem enterrou seus mortos em grutas no alto da escarpa, entre os séculos XI e XVI, e os dogons seguiram usando as mesmas grutas depois.

No sudoeste dos Estados Unidos, os ancestrais dos povos pueblo ergueram casas de pedra embaixo das saliências da rocha de Mesa Verde, no século XIII, e deixaram o lugar antes de 1300. Em todos esses casos, a falésia oferecia o que o vale não dava: distância de quem chegava pelo chão.

III  O Arquivo

O reino fechado

Por séculos, quase ninguém de fora do Himalaia ouviu falar dessas cavernas, porque quase ninguém de fora entrava no Mustang. A região foi o reino de Lo, fundado em 1380 pelo guerreiro Ame Pal, que ergueu a capital murada de Lo Manthang no alto do vale.

A capital ainda conserva a muralha de terra socada e os mosteiros erguidos nos séculos seguintes, com murais budistas que equipes de restauradores limparam depois da abertura da região. Os moradores falam um dialeto tibetano e seguem o calendário de festas do planalto.

A porta aberta em 1992

O reino perdeu a independência para o Nepal no século XVIII, mas os reis de Lo seguiram com o título e o palácio. O governo nepalês manteve o Alto Mustang fechado a estrangeiros até 1992, por causa da fronteira sensível com o Tibete, ocupado pela China.

Até a abertura, só visitantes com licença especial entravam. O explorador francês Michel Peissel esteve em Lo Manthang em 1964 e descreveu o lugar no livro “Mustang: A Lost Tibetan Kingdom” (“Mustang, um reino tibetano perdido”), de 1967. A monarquia local só acabou em 2008, quando o Nepal virou república e o último rei, Jigme Palbar Bista, perdeu o título.

Os livros na rocha

Com a região aberta, Pete Athans voltou várias vezes. Em 2007, numa das cavernas de moradia, a equipe dele achou paredes pintadas com cenas da vida de Buda e, em outra, milhares de páginas manuscritas em tibetano, guardadas ali séculos antes, segundo a National Geographic.

Foi o trabalho nas cavernas de moradia que levou o grupo às tumbas mais antigas e, em 2010, ao poço de Samdzong 5. A máscara saiu da rocha embrulhada em algodão e foi estudada no Nepal, com o Departamento de Arqueologia do país.

O que os ossos guardavam

Os restos humanos seguiram para o laboratório. A bioarqueóloga Jacqueline Eng, que analisou os ossos de Samdzong, encontrou nos crânios e nos ossos longos riscos finos de lâmina, feitos logo depois do óbito, em boa parte dos 27 indivíduos.

Os cortes não mostram sinal de luta nem de ferimento em vida. Foram feitos com calma, ao longo dos ossos, por quem preparava os corpos para a câmara.

A quase 4.000 metros, a boca de Samdzong 5 continua aberta na falésia ocre do Kali Gandaki, e a máscara de ouro e prata deixou o escuro com o rosto ainda intacto.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que os ossos achados na tumba de Samdzong trazem marcas de faca?

★ RARO

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Segundo a reportagem de Michael Finkel na National Geographic, quantas pessoas foram achadas nas duas maiores cavernas de Samdzong?

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