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Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 112

A Lapita atravessou o Pacífico e largou o carimbo dentado

Entre 1350 e 750 a.C., a cerâmica de carimbo dentado marcou o avanço mais rápido do Pacífico, e depois de Tonga e Samoa o desenho sumiu.

A Lapita atravessou o Pacífico e largou o carimbo dentado

Caco lapita com carimbo dentado, de Teouma

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A LINHA DO TEMPO

c. 1350 a.C., a cerâmica de carimbo dentado aparece no arquipélago Bismarck → c. 1200 a.C., surgem os povoados lapita das ilhas Reef e Santa Cruz → c. 1100 a.C., Vanuatu recebe o cemitério de Teouma → c. 900 a.C., a cerâmica alcança Fiji → c. 880 a.C., Nukuleka é fundada em Tonga → c. 750 a.C., o carimbo dentado desaparece do repertório → 1952, a escavação da Nova Caledônia fixa o nome → 2003, uma terraplenagem abre Teouma.

Num terraço de coral em Éfaté, Vanuatu, uma terraplenagem abriu em 2003 o maior cemitério lapita conhecido.

Os potes ali depositados trazem o carimbo dentado que sumiu do Pacífico assim que a viagem longa terminou.

A 800 metros da arrebentação, num terraço de coral erguido sobre a baía, na costa sul da ilha de Éfaté, em Vanuatu, uma máquina de terraplenagem raspou o topo de uma duna em 2003 e jogou cacos de cerâmica para fora do corte. O lugar se chama Teouma. Debaixo daquele terraço estava o maior cemitério conhecido da cultura Lapita, escavado a partir dali pela equipe de Stuart Bedford, do Museu Nacional de Vanuatu, e de Matthew Spriggs, da Australian National University.

Os potes que saíram do corte trazem um tipo de decoração muito reconhecível. O ceramista pressionava na argila ainda mole um instrumento de ponta serrilhada, parecido com um pente estreito, e ia repetindo a impressão até formar faixas de triângulos, losangos, espirais e retículas que cobrem o ombro e a borda da peça. Em algumas peças, os motivos se organizam em torno de uma face de olhos vazados. O nome técnico da técnica é carimbo dentado, e ela é o traço que permite reconhecer um sítio dessa cultura em ilhas separadas por milhares de quilômetros de mar aberto.

A distribuição é o dado que impressiona. Cacos com o mesmo repertório gráfico aparecem do arquipélago Bismarck, a nordeste da Nova Guiné, até Tonga e Samoa, num arco que passa por Salomão, Vanuatu, Nova Caledônia e Fiji. Entre os dois extremos há mais de quatro mil quilômetros de oceano, e seis séculos separam a primeira cerâmica desse tipo da última.

E há o detalhe que muda a leitura. Depois de o povoamento alcançar Tonga e Samoa, a decoração vai ficando mais rala, os motivos perdem complexidade e, em poucas gerações, a superfície dos potes fica lisa. A técnica não some por falta de argila nem por sumiço de população: os povoados continuam ali, crescendo. O que parou foi o desenho.

Vale reconstruir quem fabricava aquelas peças e como esses povoados funcionavam.

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I  O Estrato

Quem carregava o pote de carimbo dentado

A cultura Lapita não é um império nem um reino. É um conjunto de comunidades aparentadas de agricultores e navegadores que ocupam, num intervalo curto, uma faixa enorme do Pacífico ocidental levando consigo o mesmo pacote material: cerâmica de carimbo dentado, lâminas de concha, anzóis, adornos de tridacna, porco, cachorro, galinha, inhame, taro e árvores frutíferas de plantio.

O nome vem de um engano de audição. Em 1952, escavações no norte da Nova Caledônia registraram o sítio como Lapita, transcrição imperfeita de uma palavra local da região de Koné, e o termo pegou para toda a distribuição da cerâmica. As peças já haviam sido notadas antes, em Watom, na Nova Bretanha, mas foi o trabalho da década de 1950 e as datações por radiocarbono das décadas seguintes que amarraram os achados dispersos numa unidade arqueológica.

Os povoados típicos ficam na costa, muitas vezes sobre plataformas de recife ou em pequenas ilhas junto à ilha maior, com casas sobre estacas em áreas rasas de laguna. A escolha diz bastante: o grupo se instala onde o barco chega e o recife alimenta, não no interior fértil que exigiria abrir floresta.

A ocupação avança em saltos longos e em intervalos curtos, o que só faz sentido com embarcação de vela capaz de navegar contra o vento dominante e com viagem de volta prevista desde a partida.

O sítio de Nenumbo, nas ilhas Reef, escavado por Roger Green nos anos 1970, deu um dos retratos mais completos de um povoado desse tipo: planta de casa, área de trabalho, restos de fauna e obsidiana trazida de fontes distantes. A obsidiana sustenta o argumento de rede, porque a análise geoquímica identifica a fonte de cada lasca, e lascas do arquipélago Bismarck aparecem a mais de dois mil quilômetros da jazida.

O pacote agrícola conta a mesma história de planejamento. Porco, cachorro e galinha não nadam entre ilhas, e inhame, taro, banana e coqueiro não chegam sozinhos a uma praia nova: alguém embarcou bicho vivo, muda e semente, calculou a água e a comida da travessia e aceitou perder parte da carga no caminho. Uma viagem assim não é deriva de pescador levado pela tempestade, é expedição montada com antecedência.

Em Teouma, além dos potes, saíram sepulturas com um tratamento funerário próprio. Os corpos foram enterrados e, depois da decomposição, o crânio foi retirado; num dos casos, três crânios foram repostos sobre o peito de um esqueleto sem cabeça. Análises de isótopos e de DNA antigo publicadas a partir do material do sítio indicam que parte dos indivíduos enterrados ali tinha ascendência recém-chegada da Ásia insular, e não da população que já vivia na Melanésia havia dezenas de milhares de anos.

 

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II  O Padrão

O desenho para quando a viagem acaba

O carimbo dentado é caro de produzir. Cada banda pede um instrumento próprio, mão treinada e tempo de trabalho antes de a argila secar, e o resultado precisa obedecer a um repertório de motivos que se repete com fidelidade impressionante entre ilhas muito distantes. Um caco de Vanuatu e um de Fiji trazem variações do mesmo desenho.

Uma decoração que se mantém idêntica a milhares de quilômetros de distância cumpre função de identificação. Ela diz, para quem recebe o barco numa praia desconhecida, de que grupo aquele visitante veio e com quem ele se relaciona. Serve para casamento, para pedido de terra, para acesso a matéria-prima e para o socorro de que uma colônia nova depende nos primeiros anos, quando a roça ainda não produz.

A cronologia sustenta a leitura. As datações de radiocarbono trabalhadas por David Burley, da Simon Fraser University, e Fiona Petchey, da Universidade de Waikato, colocam a fundação de Nukuleka, em Tongatapu, por volta de 880 antes da nossa era, e os sítios de Fiji pouco antes. O trecho entre Vanuatu e Tonga, o mais aberto de todo o percurso, foi vencido em um punhado de gerações.

Enquanto a frente de povoamento avança, o pote decorado é documento de identidade que viaja; quando a frente para, o documento perde para quem apresentar.

“A dispersão Lapita representa a colonização humana mais rápida de um espaço oceânico em toda a pré-história, e a cerâmica decorada é o fio que permite segui-la ilha por ilha.”

Patrick Vinton Kirch, On the Road of the Winds, 2000

Em Tonga e Samoa, a viagem termina por um motivo geográfico. A leste dali, a próxima terra habitável fica muito além do alcance das rotas praticadas até então, e o avanço só recomeça mais de mil anos depois, com outra tecnologia de navegação, na expansão que povoa a Polinésia oriental. Nesse intervalo, as comunidades de Tonga e Samoa ficam isoladas do resto da rede.

Nas ilhas mais próximas da origem, onde o trânsito de barcos continuou depois da passagem da frente, a cerâmica decorada dura mais tempo nas camadas. Onde o contato rareia, o repertório encolhe mais depressa.

O que acontece com a cerâmica acompanha a mudança. Os motivos ficam mais espaçados, as faixas encolhem, o número de instrumentos usados por peça cai, e o resultado final é a cerâmica lisa que os arqueólogos da região chamam de Polynesian Plainware. A forma útil do pote continua, o repertório gráfico é que se apaga.

O Espelho: um sinal caro sobrevive enquanto existe alguém do outro lado para lê-lo. Quando a rede que dava sentido ao sinal se fecha, ele deixa de ser abandonado por decadência e passa a ser abandonado por falta de leitor, e o mesmo grupo que investia horas no desenho passa a investir em outro esforço.

III  O Arquivo

Onde checar a Lapita, Teouma e Nukuleka

Para a visão de conjunto do povoamento do Pacífico e o lugar da Lapita nele, ver Patrick Vinton Kirch, On the Road of the Winds: An Archaeological History of the Pacific Islands before European Contact, publicado pela University of California Press, com edição revista em 2017.

Para o cemitério de Éfaté, ver as publicações de Stuart Bedford, Matthew Spriggs e Ralph Regenvanu sobre Teouma, que descrevem a estratigrafia, o tratamento dos crânios e os potes depositados nas sepulturas.

Para o povoado escavado nas ilhas Reef, ver os relatórios de Roger Green e de Peter Sheppard sobre Nenumbo e sobre a circulação de obsidiana no Pacífico ocidental, que trazem a caracterização geoquímica das fontes.

Para a cronologia da chegada a Tonga, ver os trabalhos de David Burley e Fiona Petchey sobre Nukuleka, em Tongatapu, que discutem as amostras datadas e a margem de erro de cada uma.

Vale um aviso de método. A datação por radiocarbono em sítio costeiro do Pacífico depende de correção para o efeito reservatório marinho, porque conchas e ossos de quem comia peixe devolvem idades mais antigas do que a real, e parte das datas antigas da bibliografia foi revista por essa razão.

Vale outro aviso sobre o alcance da evidência. A ausência de decoração numa camada mais recente indica mudança de prática, não substituição de população, e nenhuma das explicações propostas para o abandono do carimbo dentado, perda de contato, mudança de função social ou economia de trabalho, foi demonstrada sozinha.

O pote de Teouma, com a face de olhos vazados carimbada na parede, segue guardado no Museu Nacional de Vanuatu, em Port Vila, catalogado como oferenda funerária do terraço de coral que a terraplenagem abriu a 800 metros da arrebentação.

 
 

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Por que a cultura recebeu o nome 'Lapita'?

AHomenagem ao arqueólogo que descobriu o primeiro sítio
BTranscrição imperfeita de uma palavra local ouvida numa escavação de 1952 na Nova Caledônia
CNome da ilha de Vanuatu onde fica o cemitério de Teouma
DTermo polinésio que significa carimbo dentado

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