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Hatshepsut governou o Egito por volta de 1479 a 1458 antes da era comum, primeiro como regente e depois como faraó de titulatura completa, na décima oitava dinastia.
O templo funerário dela fica em Deir el-Bahari, na margem oeste de Tebas, encostado na parede de rocha. São terraços sobrepostos ligados por rampas, com colunatas cujas paredes internas funcionam como painel narrativo.
Numa dessas colunatas está a expedição a Punt. O conjunto é raro na arte egípcia por ser reportagem: não é cena ritual repetida por convenção, é sequência de acontecimentos com detalhe de campo.
Os barcos aparecem em corte lateral, com casco de junta amarrada, mastro único de vela quadrada, leme de remo na popa e tripulação em ação, remando, carregando e amarrando carga.
A paisagem de chegada tem elementos que não aparecem em cena egípcia comum. Casas redondas sobre palafita, acesso por escada, palmeira e árvore de incenso, gado de chifre curto, e vida marinha desenhada com precisão de quem olhou.
Os peixes do relevo foram identificados por zoólogos como espécies do mar Vermelho, incluindo peixe-porco, garoupa e peixe-agulha, o que amarra a rota da frota a esse corpo de água e não ao Mediterrâneo.
O texto que acompanha as imagens registra a recepção. Um chefe local chamado Parehu e uma mulher chamada Ati, desenhada com formas corporais tão marcadas que a figura virou objeto de literatura médica moderna, recebem a delegação egípcia.
A troca aparece nos dois sentidos. Os egípcios desembarcam contas, machados, punhais e artigos manufaturados; os moradores entregam a carga aromática e os produtos de origem tropical.
O item mais valioso da viagem não foi a resina pronta. Foram trinta e uma árvores de incenso vivas, transportadas com torrão de terra em cesto, carregadas por pares de homens em varas de ombro.
A ambição por trás do detalhe é clara. Árvore viva significa tentativa de plantar a fonte do produto dentro do Egito e encerrar a dependência da viagem, e os buracos de plantio do terraço do templo ainda são visíveis.
A tentativa não vingou como política de longo prazo. O incenso continuou vindo de fora depois dela, o que indica que a muda transplantada não sustentou produção em escala no clima e no solo tebanos.
Os babuínos entraram na mesma carga. O animal era associado a Thoth, deus da escrita e da contagem, e chegava vivo ao Egito para viver em templo ou casa de elite, com dieta e cuidado registrados nos ossos.
A viagem também não foi a primeira. Registros anteriores de contato com Punt aparecem já no Antigo Império, por volta de 2500 antes da era comum, o que faz da rota um vínculo comercial de mais de mil anos.
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