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ED 093

A frota que Hatshepsut mandou a um reino sem endereço

Deir el-Bahari registrou a viagem inteira em relevo, com barco, casa e carga conferida, e nenhuma linha sobre a posição do reino.

A frota que Hatshepsut mandou a um reino sem endereço

Relevo da frota de Punt em Deir el-Bahari

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A LINHA DO TEMPO

Por volta de 2500 a.C., os primeiros registros de carga vinda do Punt → cerca de 1470 a.C., a frota de Hatshepsut parte e volta → o relevo é gravado em Deir el-Bahari → por volta de 1100 a.C., o nome some dos textos egípcios.

O Egito gravou a viagem inteira ao Punt na parede do templo, item por item.

Ficou de fora a única linha que faltava: onde ficava o reino.

# A frota que Hatshepsut mandou a um reino sem endereço

O Egito faraônico registrava carga com precisão de almoxarife. Peso, quantidade, natureza do produto, nome do responsável pela entrega e destino do estoque, tudo gravado em pedra ou tinta.

Por volta de 1470 antes da era comum, uma rainha egípcia mandou uma frota a um lugar chamado Punt e mandou registrar a viagem inteira na parede do próprio templo funerário.

O relevo mostra os barcos com vela quadrada e fileira de remos, as casas do lugar erguidas sobre estacas com escada de acesso, os peixes do mar por onde a frota passou, os moradores recebendo a delegação e a carga voltando empilhada no convés.

A lista do que veio é longa e específica. Resina aromática em bloco e em muda viva, madeira, ouro, marfim, peles de felino, animais vivos e babuínos que entraram no Egito como bicho de templo e de casa nobre.

Falta uma informação no meio de tanta contabilidade. Nenhuma linha do relevo, e nenhum outro texto egípcio conhecido, diz onde Punt ficava.

Não é omissão estranha para quem escreveu. Para o escriba egípcio, Punt era destino conhecido do próprio Estado, tão dispensável de explicar quanto o endereço da capital.

O problema apareceu depois, quando o Estado que sabia o caminho deixou de existir e o nome parou de aparecer nos textos, por volta de 1100 antes da era comum.

Desde o século XIX, egiptólogos propuseram posições que vão do sul do Sudão à costa da Eritreia, da Etiópia, da Somália e até da Arábia do outro lado do mar Vermelho, cada uma sustentada por um pedaço diferente da evidência.

O impasse durou porque o material disponível é indireto. Imagem de planta, imagem de animal, tipo de casa e nome de produto podem sugerir uma faixa de clima, mas não fixam uma costa.

A quebra veio de um lugar que ninguém procurou no começo. Não do texto, não da cerâmica, não da escavação de um porto, mas do esmalte dentário de babuínos mumificados que os egípcios trouxeram de lá.

Vale reconstruir o que exatamente está gravado em Deir el-Bahari, o que a expedição trouxe de volta e por que a leitura mais firme do endereço veio de um bicho embalsamado.

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I  O Estrato

O que está gravado na parede de Deir el-Bahari

Hatshepsut governou o Egito por volta de 1479 a 1458 antes da era comum, primeiro como regente e depois como faraó de titulatura completa, na décima oitava dinastia.

O templo funerário dela fica em Deir el-Bahari, na margem oeste de Tebas, encostado na parede de rocha. São terraços sobrepostos ligados por rampas, com colunatas cujas paredes internas funcionam como painel narrativo.

Numa dessas colunatas está a expedição a Punt. O conjunto é raro na arte egípcia por ser reportagem: não é cena ritual repetida por convenção, é sequência de acontecimentos com detalhe de campo.

Os barcos aparecem em corte lateral, com casco de junta amarrada, mastro único de vela quadrada, leme de remo na popa e tripulação em ação, remando, carregando e amarrando carga.

A paisagem de chegada tem elementos que não aparecem em cena egípcia comum. Casas redondas sobre palafita, acesso por escada, palmeira e árvore de incenso, gado de chifre curto, e vida marinha desenhada com precisão de quem olhou.

Os peixes do relevo foram identificados por zoólogos como espécies do mar Vermelho, incluindo peixe-porco, garoupa e peixe-agulha, o que amarra a rota da frota a esse corpo de água e não ao Mediterrâneo.

O texto que acompanha as imagens registra a recepção. Um chefe local chamado Parehu e uma mulher chamada Ati, desenhada com formas corporais tão marcadas que a figura virou objeto de literatura médica moderna, recebem a delegação egípcia.

A troca aparece nos dois sentidos. Os egípcios desembarcam contas, machados, punhais e artigos manufaturados; os moradores entregam a carga aromática e os produtos de origem tropical.

O item mais valioso da viagem não foi a resina pronta. Foram trinta e uma árvores de incenso vivas, transportadas com torrão de terra em cesto, carregadas por pares de homens em varas de ombro.

A ambição por trás do detalhe é clara. Árvore viva significa tentativa de plantar a fonte do produto dentro do Egito e encerrar a dependência da viagem, e os buracos de plantio do terraço do templo ainda são visíveis.

A tentativa não vingou como política de longo prazo. O incenso continuou vindo de fora depois dela, o que indica que a muda transplantada não sustentou produção em escala no clima e no solo tebanos.

Os babuínos entraram na mesma carga. O animal era associado a Thoth, deus da escrita e da contagem, e chegava vivo ao Egito para viver em templo ou casa de elite, com dieta e cuidado registrados nos ossos.

A viagem também não foi a primeira. Registros anteriores de contato com Punt aparecem já no Antigo Império, por volta de 2500 antes da era comum, o que faz da rota um vínculo comercial de mais de mil anos.

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II  O Padrão

O lugar que só existe na versão de quem foi

Punt é um caso limpo de assimetria de registro. Existe farto material sobre o reino, e todo ele foi produzido pelo parceiro comercial, não pelo próprio reino.

Nada em Punt escreveu sobre Punt. Não há texto local, não há autodenominação preservada, não há inscrição de um chefe puntita dizendo quem era, onde estava e com quem negociava.

O que sobra é o retrato feito pelo visitante, com as escolhas do visitante. O que interessava ao Egito virou detalhe minucioso; o que não interessava não foi gravado, e a posição geográfica caiu nessa segunda categoria.

Por isso o debate de localização ficou preso a pistas de segunda ordem. Peixe do relevo, tipo de casa, espécie de árvore, palavra emprestada e tempo de viagem estimado, cada uma compatível com mais de uma costa.

"Punt permaneceu, por mais de um século de egiptologia, um lugar conhecido em detalhe e desconhecido em posição."
Kathryn A. Bard e Rodolfo Fattovich, Seafaring Expeditions to Punt in the Middle Kingdom, 2018

A saída veio por outra porta. Em 2020, uma equipe liderada pelo antropólogo Nathaniel Dominy mediu isótopos de oxigênio e de estrôncio no esmalte de babuínos mumificados guardados em museu.

O princípio é direto. A água que o animal bebe enquanto o dente se forma carrega uma assinatura isotópica ligada à geografia, e essa assinatura fica travada no esmalte e não se altera depois.

Os pesquisadores compararam a assinatura dos babuínos egípcios com a de populações modernas de babuíno de várias regiões da África oriental. A faixa que deu compatível corresponde ao entorno da Eritreia e do norte da Etiópia, com a Somália e o Iêmen fora do intervalo.

A geografia do reino não saiu do texto que o descrevia, saiu do dente de um bicho que o Egito trouxe como carga. O registro escrito guardou tudo menos a coordenada; o corpo importado guardou só a coordenada.

O padrão vale além de Punt. Sempre que um lugar sobrevive apenas na descrição de quem o visitou, o que se preserva é o inventário de interesse do visitante, e o que ele considerava óbvio some sem substituto.

O Espelho: olhe para um processo, um cliente ou um fornecedor da sua operação que só está documentado no relato de quem lidou com ele, sem registro produzido do outro lado.

Anote qual informação nunca foi escrita porque na época era óbvia para todo mundo na sala. Quando a pessoa que sabia sair, essa é exatamente a linha que vai faltar, e nenhum documento existente vai repor.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar Punt, Deir el-Bahari e os babuínos

Sobre os relevos e a expedição, ver a publicação clássica de Édouard Naville, The Temple of Deir el Bahari, em seis volumes, editada pelo Egypt Exploration Fund entre 1894 e 1908, que reproduz as cenas parede por parede.

Sobre a arqueologia do porto de partida no mar Vermelho, ver Kathryn A. Bard e Rodolfo Fattovich, Seafaring Expeditions to Punt in the Middle Kingdom: Excavations at Mersa/Wadi Gawasis, publicado pela Brill em 2018, com o material náutico recuperado nas galerias.

Sobre a análise isotópica dos babuínos e a leitura de localização, ver Nathaniel J. Dominy e colegas, Mummified baboons reveal the far reach of early Egyptian mariners, publicado na revista eLife em 2020.

Sobre a síntese do debate de localização ao longo da egiptologia, ver Dimitri Meeks, Locating Punt, capítulo do volume Mysterious Lands, organizado por David O'Connor e Stephen Quirke, publicado pela UCL Press em 2003.

Para ver de perto, o próprio templo de Deir el-Bahari, em Luxor, mantém a colunata com as cenas, e o Museu Egípcio do Cairo guarda material da dinastia de Hatshepsut.

Vale o aviso de cronologia. As datas do reinado de Hatshepsut e do ano da expedição saem de cronologia relativa egípcia com margens de anos, e não de um calendário absoluto verificado.

Vale outro aviso sobre o relevo. As cenas foram gravadas por encomenda do Estado egípcio, com função de propaganda de reinado, e podem comprimir, idealizar ou reorganizar o que aconteceu na viagem.

Vale um aviso final sobre os isótopos. O resultado indica uma faixa geográfica compatível, e não um ponto no mapa, e depende de amostra pequena e de dados de referência de populações modernas de babuíno.

 
 
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