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ED 123

A escada que o sal guardou por 33 séculos

Numa galeria do Hallstätter Salzberg, oito metros de degraus encaixados sobreviveram desde 1344 a.C. porque o sal impediu a madeira de apodrecer.

Escada de madeira da Idade do Bronze encaixada no sedimento salgado de uma galeria da mina de Hallstatt

Escada de madeira na mina de Hallstatt, Áustria

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A LINHA DO TEMPO

por volta de 1500 antes da era cristã, começam os poços da fase Bronze no Hallstätter Salzberg → por volta de 1344, são derrubadas as árvores usadas na escada da galeria Christian von Tuschwerk → por volta de 1245, uma corrida de lama sela as galerias da fase Bronze e interrompe a exploração → século VIII antes da era cristã, a mineração recomeça em outro ponto da montanha e origina o cemitério da fase seguinte → 1846, Johann Georg Ramsauer inicia a escavação desse cemitério e registra cerca de mil sepulturas → 2002, a equipe do Museu de História Natural de Viena localiza a escada no sedimento salgado → 2014, a estrutura sai da montanha em blocos para conservação → 2015, a peça conservada entra em exposição no museu do vale

Em 2002, arqueólogos do Museu de História Natural de Viena encontraram madeira trabalhada a cerca de cem metros dentro da montanha de sal de Hallstatt, na Áustria.

Oito metros de degraus encaixados, cortados em 1344 antes da era cristã, que o próprio sal impediu de apodrecer.

Em 2002, uma equipe do Museu de História Natural de Viena trabalhava a cerca de cem metros dentro do Hallstätter Salzberg, a montanha de sal que fecha o vale de Hallstatt, nos Alpes austríacos. A frente de escavação daquele ano ficava numa galeria batizada de Christian von Tuschwerk, aberta pela mineração moderna e usada pelos arqueólogos para alcançar camadas antigas. O que apareceu na parede de sedimento não foi ferramenta solta nem osso de animal: era madeira trabalhada, com as marcas do machado ainda legíveis na superfície.

A peça saiu do sedimento em partes, em campanhas sucessivas, até somar oito metros de estrutura contínua. Duas vigas laterais grossas, degraus encaixados em entalhes abertos nessas vigas, cunhas de madeira travando cada encaixe. Uma escada inteira, larga o bastante para duas pessoas subirem lado a lado carregando peso.

A idade veio dos anéis do tronco. O método se chama dendrocronologia, leitura da sequência de anéis anuais de crescimento da madeira, que permite fixar o ano em que a árvore caiu quando existe uma série de referência regional. As árvores usadas na estrutura foram derrubadas no inverno de 1344 para 1343 antes da era cristã, segundo a datação publicada pela equipe do museu vienense responsável pela escavação. A escada é, por essa medida, a mais antiga já encontrada inteira na Europa.

A explicação para ela ter chegado ao século XXI está na própria mina. O sal-gema retira a água do ambiente e impede a ação dos fungos e das bactérias que decompõem material orgânico. O mesmo depósito que motivou o trabalho conservou o que ficou esquecido dentro dele: cabo de ferramenta, corda de fibra vegetal, couro, tecido, resto de comida e lasca de pinho queimado.

Vale reconstruir como uma montanha austríaca virou mina de escala industrial três mil anos atrás, o que a construção dos degraus revela sobre aquele trabalho, e onde conferir cada afirmação feita aqui.

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I  O Estrato

A montanha que virou fábrica na Idade do Bronze

O sal do Hallstätter Salzberg se formou muito antes de qualquer mineiro, quando um mar raso evaporou na região há cerca de 250 milhões de anos e o movimento das placas empurrou o depósito para dentro do que hoje são os Alpes. O resultado é um corpo de sal misturado a argila e a rocha, e essa mistura decide o método: ali não se colhe sal em salina de superfície, e sim quebrando a parede da galeria com picareta.

A exploração começou cedo. Há sinais de extração no vale desde o quinto milênio antes da era cristã, com uma picareta de chifre de veado achada na montanha. O trabalho em escala industrial, porém, é outro assunto, e começa por volta de 1500 antes da era cristã, quando aparecem poços verticais fundos, sustentados por armação de madeira, descendo dezenas de metros para alcançar as camadas de sal mais puro.

Esses poços exigiam gente em quantidade e em ritmo constante. As paredes eram atacadas com picaretas de bronze de formato característico, presas a cabos longos, e o material arrancado descia em sacos de couro e em baldes de casca de árvore. A iluminação vinha de lascas finas de pinho acesas nas paredes, que deixaram carvão e fuligem datáveis nas galerias.

O sedimento escuro que preenche as galerias antigas tem nome próprio na mina. Os mineiros modernos o chamam de Heidengebirge, literalmente montanha dos pagãos, o entulho de argila, sal e restos deixados pelo trabalho pré-histórico. É dentro dessa massa que os objetos orgânicos aparecem, e é por dentro dela que a escavação arqueológica avança, quase sempre em espaços onde ninguém fica de pé.

A riqueza gerada por essa operação aparece no cemitério da fase seguinte, escavado na montanha a partir de 1846 por Johann Georg Ramsauer, diretor da mina estatal. Ele abriu cerca de mil sepulturas em quase vinte anos de campanhas e mandou registrar cada uma em aquarela, prática incomum para a época. As peças que saíram dali, espadas, fíbulas, vasilhas de bronze e objetos vindos da Itália e do Báltico, mostram uma comunidade que trocava sal por produto de luxo a distâncias enormes.

Esse cemitério deu nome a um período inteiro da arqueologia europeia, a cultura de Hallstatt, usada para designar a primeira Idade do Ferro no centro do continente, entre os séculos VIII e V antes da era cristã.

A fase que interessa à escada, porém, é anterior ao cemitério famoso. Ela pertence ao período em que a mineração acontecia nos poços fundos da Idade do Bronze, encerrada por volta de 1245 antes da era cristã, quando uma corrida de lama desceu a encosta e selou as galerias. Aquele desastre interrompeu a exploração naquele ponto da montanha, e foi ele que empacotou a escada no sedimento onde ela ficou.

 

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II  O Padrão

Degraus feitos para serem desmontados

A estrutura localizada em 2002 tem oito metros de comprimento e foi montada com peças preparadas fora do lugar de instalação. As duas vigas laterais receberam entalhes rasos em intervalos regulares; cada degrau, uma tábua espessa, entra no entalhe e é travado por cunhas cravadas de ambos os lados. Nenhum prego, nenhuma amarração, nenhuma cola.

O sistema de cunhas tem uma consequência prática que os arqueólogos do museu vienense destacam nos relatórios de campo: qualquer degrau podia ser retirado sozinho, sem tocar no resto. Um degrau gasto saía e outro entrava, e a escada inteira podia ser desmontada e remontada em outro ponto da mina. Quem construiu aquilo projetou manutenção e mudança de lugar desde o desenho.

A largura também informa. A peça comporta duas pessoas subindo ao mesmo tempo, e o desgaste encontrado nos degraus mostra uso intenso nos dois lados. Isso combina com o que o restante da galeria sugere: fluxo contínuo de gente descendo vazia e subindo carregada, em turnos, e não visitas esporádicas de um punhado de mineiros.

A escada ligava níveis diferentes da mesma operação de extração, e a inclinação suave indica trajeto de carga, não passagem de emergência: subir ali com um saco de sal nas costas era tarefa de rotina, repetida centenas de vezes por dia.

Outros achados da mesma mina completam o retrato do grupo que trabalhava lá dentro. Saíram do Heidengebirge gorros de pele, restos de calçado de couro em tamanhos pequenos, sacos de transporte remendados e excremento humano preservado, que permitiu identificar a dieta de quem passava o dia na galeria, à base de cereal, feijão e carne de porco. A presença de peças pequenas indica que crianças e adolescentes participavam de alguma parte da operação, provavelmente em trechos estreitos onde adulto não passa.

Nada disso vem acompanhado de texto. A comunidade de Hallstatt da Idade do Bronze não deixou escrita, e o que se conhece do funcionamento dela sai do próprio material de trabalho: a marca do machado, o formato da cunha, o número de degraus, o padrão de desgaste, o carvão das lascas de pinho e o lixo orgânico do turno. A arqueologia chama esse tipo de leitura de análise de cadeia operatória, ou seja, a reconstrução dos gestos e das decisões que produziram um objeto.

Vale dizer com franqueza o que continua fora de alcance. Ninguém sabe o nome de quem construiu a escada, quem mandou construir, se o trabalho era pago, obrigatório ou familiar, nem qual língua se falava naquela galeria. O material preservado responde sobre método, ritmo e organização técnica, e silencia sobre poder, hierarquia e crença, porque não existe fonte que alcance esses pontos. A comunidade da fase Bronze só aparece pelo que ela fez com as mãos.

O Espelho: um grupo sem arquivo nenhum deixou registro exato do próprio método porque construiu uma peça pensada para durar, ser consertada e mudar de lugar. Vale examinar o que a sua forma de trabalhar deixaria legível para alguém que encontrasse apenas as suas ferramentas, sem nenhuma das suas explicações.

III  O Arquivo

Onde conferir a madeira, a data e a mina

Para a escavação e a interpretação da escada, ver os trabalhos de Hans Reschreiter e Kerstin Kowarik, arqueólogos do Departamento de Pré-História do Museu de História Natural de Viena, responsáveis pelas campanhas no Hallstätter Salzberg e autores dos relatórios sobre a estrutura de madeira da galeria Christian von Tuschwerk.

Para o panorama do sítio, ver o volume Salz-Reich, Sieben Jahrtausende Hallstatt, organizado por Anton Kern, Kerstin Kowarik, Andreas Rausch e Hans Reschreiter, publicado em 2008 pelo Museu de História Natural de Viena, que reúne a mineração das duas fases, os achados orgânicos e a história das escavações.

Para a fase da Idade do Bronze e para os métodos de datação da madeira, ver a produção de Fritz Eckart Barth, que dirigiu por décadas a pesquisa arqueológica na mina, e os estudos dendrocronológicos conduzidos por Michael Grabner e colegas na Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida de Viena, que fixaram o ano de corte das árvores da estrutura.

Vale um aviso sobre o objeto em si. A escada saiu da montanha em blocos em 2014, passou por conservação com polietilenoglicol, cera sintética solúvel em água que substitui a umidade da madeira e evita o colapso das fibras, e desde 2015 está em exposição no museu do vale de Hallstatt. A peça visível hoje é uma estrutura tratada em laboratório, e a documentação de campo é o que sustenta a leitura do contexto original.

Vale outro aviso sobre as datas do quadro geral. O ano de corte das árvores da escada tem precisão alta por vir dos anéis de crescimento, mas as balizas de início e de fim da mineração na fase Bronze, por volta de 1500 e por volta de 1245 antes da era cristã, são intervalos de trabalho construídos por séries de amostras e continuam sendo ajustados a cada campanha. Tratar o primeiro número como data e os outros dois como aproximação.

 
 
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Qual método permitiu datar a escada de Hallstatt no inverno de 1344 para 1343 antes da era cristã?

ADatação por carbono-14 do carvão nas paredes
BEstratigrafia das camadas do Heidengebirge
CDendrocronologia, leitura dos anéis de crescimento da madeira
DComparação com as sepulturas escavadas por Ramsauer

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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