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ED 088

A enchente que vendeu Jiroft antes do primeiro arqueólogo

Vale do Halil Rud, 2001: uma cheia expôs um cemitério do terceiro milênio a.C. e a escavação começou pelas mãos erradas.

A enchente que vendeu Jiroft antes do primeiro arqueólogo

Vaso de clorita e cova aberta no vale do Halil Rud

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A LINHA DO TEMPO

Inverno de 2001, a cheia do Halil Rud descobre as tumbas → 2001 e 2002, moradores esvaziam o cemitério → 2003, começa a escavação oficial em Konar Sandal → 2006, um tijolo inscrito revela escrita ainda ilegível.

Uma cheia do Halil Rud descobriu um cemitério de cinco mil anos no sudeste do Irã.

Quando o primeiro arqueólogo chegou, dois anos depois, o cemitério estava vazio.

No inverno de 2001, o rio Halil Rud subiu e comeu a margem na planície de Jiroft, sudeste do Irã. A água arrastou a camada de terra que cobria um cemitério de cerca de cinco mil anos e deixou cova aberta à vista de quem passasse.

A notícia correu pelos povoados antes de chegar a qualquer repartição. Em poucas semanas o campo estava tomado por gente cavando com picareta, pá e lampião, em turnos que varavam a noite.

Do chão saíam vasos de clorita, uma pedra verde macia, cobertos de escorpião, serpente entrelaçada, touro corcunda e figura de ave com braço humano. Saíam também conta de lápis-lazúli, lâmina de cobre e cerâmica pintada.

O material não era discreto. Vasos com esse mesmo repertório de bichos apareciam havia décadas em túmulos e templos da Mesopotâmia e do Irã, e ninguém sabia dizer de que oficina tinham saído.

As peças subiram para os bazares de Teerã e de lá para o Golfo, para a Europa, para o Japão e para o catálogo de leilão. Quando a polícia fechou o vale, em 2002, o cemitério já estava vazio.

O primeiro arqueólogo chegou em 2003. Encontrou uma planície furada de buraco a buraco, comparada nos relatórios a uma superfície lunar, e um inventário de achados que começava na sala de apreensão da polícia.

A partir daí o trabalho correu de trás para frente. Comprar de volta, apreender, receber devolução de museu estrangeiro e tentar deduzir de que camada cada objeto tinha saído, com milhares de peças e nenhuma etiqueta.

Antes de medir o tamanho do estrago, vale saber o que havia ali. Que vale é esse, que gente ergueu no meio dele uma cidadela de tijolo cru, e por que Suméria e Susa já conheciam o trabalho daquela oficina.

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I  O Estrato

A cidadela de tijolo no vale do Halil Rud

O Halil Rud nasce nas montanhas do Jebal Barez, atravessa a planície de Jiroft, na província de Kerman, e termina numa depressão salgada chamada Jazmurian. É água corrente num canto seco do planalto iraniano.

A planície é hoje um cinturão de tâmara e cítrico, com colheita farta num país de deserto. Cinco mil anos atrás, a mesma combinação de água e sol sustentava uma cadeia de povoados alinhados ao longo do rio.

O levantamento feito depois de 2003 mapeou centenas de sítios num trecho de algo em torno de 400 quilômetros do vale. Não era uma aldeia isolada perdida no meio do nada, era uma paisagem inteira ocupada.

A escavação oficial começou em janeiro de 2003, sob Yousef Madjidzadeh, com Jean Perrot e Holly Pittman na equipe, a poucos quilômetros do cemitério que tinha sido esvaziado.

Dois montículos concentraram o trabalho: Konar Sandal Norte e Konar Sandal Sul, separados por cerca de quatro quilômetros de terra plana, os dois às margens do rio.

O montículo sul guarda uma plataforma de tijolo cru de cerca de 21 metros de altura, cercada por muralha, descrita pelos escavadores como uma cidadela de dois pavimentos. O tijolo saiu do barro do próprio rio.

A datação principal cai no terceiro milênio antes de Cristo, com níveis mais antigos embaixo. É o mesmo intervalo em que Ur e Susa erguem seus grandes templos, a mais de mil quilômetros dali.

A assinatura da região é a clorita. Pedra verde-escura, macia o bastante para ser entalhada com lâmina de cobre, extraída nas montanhas de Kerman e trabalhada em oficina dentro do próprio vale.

O repertório é fixo e reconhecível: escorpião, serpente entrelaçada, touro corcunda, felino, palmeira, fachada de edifício e uma figura de ave com braço de gente. Aparece em vaso, peso, tabuleiro de jogo e recipiente com alça.

Esses objetos não ficavam em casa. Peças do mesmo estilo estão em túmulos de Ur, em templos de Nippur e Mari, em Susa, na ilha de Tarute, no Golfo, e chegam até o mundo do Indo.

A pergunta que a arqueologia carregava desde os anos 1970 era simples: onde ficava a oficina que abastecia meio Oriente Médio. O vale do Halil Rud respondeu pelo avesso, com a resposta chegando pelo mercado antes de chegar pela trincheira.

Até 2001, o melhor candidato era Tepe Yahya, sítio do mesmo planalto de Kerman escavado por Clifford Lamberg-Karlovsky entre 1967 e 1975, onde apareceram vasos inacabados e blocos de clorita bruta.

O volume de material do Halil Rud mudou a escala da pergunta. Tepe Yahya passa a ser um ponto de uma rede maior, e o centro de produção passa a ser procurado no vale que a cheia abriu.

Em 2006, a escavação tirou do chão de Konar Sandal Sul um tijolo com sinais inscritos, e outros documentos com uma escrita geométrica apareceram em seguida. Ninguém lê nenhum deles até hoje.

O corpo de texto é pequeno demais para decifração: dois ou três documentos, sem versão bilíngue, sem repetição suficiente. Existe discussão sobre parentesco com o elamita linear, e ela segue aberta.

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II  O Padrão

O que o vaso perde quando sai da cova

O que a arqueologia lê não é o objeto. É a relação: em que cova estava, a que profundidade, encostado em que osso, junto de que cerâmica, embaixo de que camada de incêndio.

Essa rede de relações é o que data, o que situa e o que separa peça importada de produção local. Tirado o vaso da cova sem registro, sobra a forma e o desenho, e some o resto.

No Halil Rud a rede foi desmontada em poucos meses. O cemitério saqueado fica em Mahtoutabad, a cerca de um quilômetro do montículo sul, e as estimativas falam em milhares de covas abertas.

Quando uma equipe voltou ao local, anos depois, o trabalho possível era outro. Escavar a pilha de terra deixada pelos saqueadores e reconstruir a sequência a partir do refugo que eles descartaram.

Deu para recuperar parte da cronologia e o tipo de sepultura. Não deu para saber qual vaso estava com qual corpo, e é justamente esse par que responderia quem usava o quê, e com que posição na hierarquia.

O segundo efeito demora mais para aparecer. Assim que o mercado aprendeu o repertório do Halil Rud, oficina de falsificação passou a produzir peça no mesmo estilo, e pedra macia é fácil de entalhar.

Sem camada, sem sítio e sem procedência, não existe teste de origem que separe a peça antiga da peça feita no ano passado. A dúvida contamina o conjunto inteiro, inclusive o que é autêntico.

O crítico mais duro dessa literatura, Oscar White Muscarella, publicou em 2005 uma resenha longa sustentando que boa parte dos objetos vendidos como Jiroft em coleção particular não tem como ser verificada.

"Os colecionadores são os verdadeiros saqueadores."
Colin Renfrew, Loot, Legitimacy and Ownership, 2000

O terceiro efeito é interpretativo. Madjidzadeh propôs identificar o vale com Aratta, a cidade rica em metal e pedra lavrada que aparece num poema sumério sobre Enmerkar, senhor de Uruk.

A proposta pegou na imprensa e não pegou na literatura especializada. Não há texto legível no sítio, não há inscrição que nomeie o lugar, e boa parte do material que alimentaria o argumento chegou sem procedência.

O que sobrou é uma civilização estudada pelo avesso. Primeiro o objeto no catálogo do leiloeiro, depois a escavação atrás de um contexto que já tinha sido removido a pá.

Objeto sem procedência não é meio dado. É um dado que ninguém consegue conferir, e dado que ninguém consegue conferir não sustenta conclusão nenhuma.

O Espelho: pegue os três números que você usou na última decisão importante e procure a origem de cada um. Quem mediu, em que período, com que definição, em que recorte de base.

Se algum deles chegou até você como print, slide ou frase solta, ele está na mesma situação do vaso de clorita no leilão: bonito, convincente e impossível de conferir. Recoloque o número na camada antes de decidir com ele.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar Jiroft e o vale do Halil Rud

Sobre o sítio e a leitura da equipe de escavação, ver Yousef Madjidzadeh, Jiroft: The Earliest Oriental Civilization, de 2003, o volume que apresentou o material ao público e propôs a identificação com Aratta.

Sobre a crítica ao uso de objeto sem procedência e ao risco de falsificação, ver a resenha de Oscar White Muscarella publicada no Bulletin of the Asia Institute, volume 15, em 2005.

Sobre a iconografia dos vasos, ver Jean Perrot e Yousef Madjidzadeh, L'iconographie des vases et objets en chlorite de Jiroft, publicado na revista Paléorient em 2006.

Sobre a leitura mais recente dos temas figurados, ver Massimo Vidale, Searching for Mythological Themes on the Jiroft Chlorite Artefacts, publicado em Iranica Antiqua em 2015.

Sobre a hipótese antiga de que a oficina ficava em Tepe Yahya, ver Clifford Lamberg-Karlovsky, Excavations at Tepe Yahya, Iran, e sobre a circulação do estilo pelo Oriente Médio, ver Philip Kohl, The Balance of Trade in Southwestern Asia in the Mid-Third Millennium B.C., de 1978.

Sobre a escrita geométrica de Konar Sandal, ver François Desset, A New Writing System Discovered in 3rd Millennium BCE Iran, publicado em Iranica Antiqua em 2014.

Sobre o contexto regional e as redes de troca do terceiro milênio entre planalto iraniano, Golfo e vale do Indo, ver Holly Pittman, The Art of the Bronze Age in Southeastern Iran, Western Central Asia, and the Indus Valley, de 1984.

Sobre o mercado que sustenta o saque e a discussão ética em volta dele, ver Colin Renfrew, Loot, Legitimacy and Ownership, de 2000.

Para ver de perto, o Museu Nacional do Irã, em Teerã, expõe parte das peças apreendidas na operação policial, e material devolvido por autoridades estrangeiras entrou no mesmo acervo, sempre sem indicação da cova de origem.

Vale o aviso de leitura. A publicação final da escavação de Konar Sandal ainda é parcial, e boa parte do que circula sobre o vale vem de relatório preliminar e de entrevista de campo.

Vale outro aviso. Qualquer contagem de peça saqueada, de cova aberta ou de objeto recuperado é estimativa: o registro que permitiria contar com precisão é exatamente o que foi destruído.

De tudo que saiu daquele vale, a peça que mais informa não é o vaso coberto de escorpiões na vitrine do museu. É a cova vazia que ninguém fotografou antes de esvaziar.

 
 
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Quiz da edição

Em que ano começou oficialmente a escavação arqueológica em Konar Sandal, sob Yousef Madjidzadeh?

A2001, ainda durante a cheia do Halil Rud
B2002, junto com o fechamento policial do vale
C2003, meses depois do cemitério ser esvaziado
D2006, ano em que saiu o tijolo inscrito

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