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A carta de 1526 em que o rei do Congo pediu seus súditos de volta
Afonso I escreveu a João III contra os navios que levavam seu povo, e o Congo resistiu até a derrota de Mbwila, em 1665
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Mbanza Kongo, norte de Angola, 1526
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A LINHA DO TEMPO
1483, Diogo Cão chega à foz do rio Congo → 1491, o rei Nzinga a Nkuwu é batizado como João I → 1506, Afonso I vence o irmão e assume o trono → 1518, Henrique, filho de Afonso, é sagrado bispo em Roma → 6 de julho de 1526, Afonso escreve a João III contra o tráfico de súditos → 1542, Afonso deixa o trono → 29 de outubro de 1665, batalha de Mbwila e queda de António I → 1678, Mbanza Kongo é abandonada na guerra civil → 1709, Pedro IV reocupa a capital → 2017, Mbanza Kongo entra na lista da Unesco
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Em 1526, o rei do Congo pediu por carta que Portugal parasse de levar seu povo.
A resposta de Lisboa ficou guardada no mesmo arquivo que a pergunta.
Mbanza Kongo fica num planalto a uns 560 metros de altitude, 6 graus ao sul do equador, a cerca de 200 quilômetros da costa atlântica. Do alto da colina, a corte via o vale do rio Luezi e as trilhas que desciam para o porto de Mpinda, na foz do rio Congo.
Era ali a capital do manikongo (título do rei, "senhor do Congo"). Em 1526, quem ocupava o trono era Afonso I, nascido Nzinga Mbemba, batizado católico na juventude e rei desde 1506.
Afonso lia e escrevia português. Mantinha secretários na corte, mandava os filhos estudar em Lisboa e trocava cartas com os reis de Portugal como quem trata com um igual, chamando cada um de "irmão".
Em 6 de julho de 1526, ditou uma dessas cartas a João III. O assunto era o porto de Mpinda: mercadores portugueses compravam gente no interior e embarcavam nos navios, sem distinguir cativo de guerra de súdito livre.
A queixa do rei não ficava na moral. Os mercadores pagavam com tecido, ferro e vinho, e com essa riqueza chefes locais deixavam de obedecer à corte. O tráfico tirava súditos do reino e, de quebra, comprava a lealdade dos vassalos.
Afonso pediu que Lisboa parasse de mandar mercadores e mercadorias. Meses depois, em outra carta, contou que tinha nomeado três fidalgos para inspecionar cada pessoa vendida antes do embarque.
A carta não deteve os navios. O Congo continuou reino cristão, com igrejas, escolas e embaixadas em Roma, por mais 139 anos, até que um exército saído de Luanda derrotou o rei António I em Mbwila, em 29 de outubro de 1665.
O que a carta pedia, quem a escreveu e por que nada mudou começa na corte que Afonso montou no planalto.
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I O Estrato
O rei que respondia por escrito
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Os portugueses chegaram ao Congo em 1483, com a frota de Diogo Cão, que fincou um padrão de pedra na foz do rio. Em 1491, o rei Nzinga a Nkuwu aceitou o batismo e passou a se chamar João I.
O filho Nzinga Mbemba se batizou junto, como Afonso. Quando o pai saiu de cena, em 1506, Afonso enfrentou o irmão Mpanzu a Kitima numa guerra pela sucessão e venceu numa batalha diante da capital, que ele mesmo atribuiu a uma aparição de São Tiago no céu.
A corte de papel
Afonso fez do cristianismo uma ferramenta de governo. Ergueu igrejas, abriu escolas para os filhos da nobreza e mandou jovens congueses estudar em Portugal.
O filho Henrique foi o mais longe. Estudou em Lisboa e, em 1518, foi sagrado bispo com autorização do papa Leão X, o primeiro bispo negro da África subsaariana. Voltou ao Congo por volta de 1521, mas a saúde frágil limitou o trabalho dele, e Henrique deixou de aparecer nos registros por volta de 1531.
A moeda do reino era o nzimbu (pequena concha colhida na ilha de Luanda), controlada pela coroa. O rei cobrava tributo das províncias e distribuía cargos, e o comércio com Portugal passava, em tese, pela mão dele.
O que a carta dizia
Na prática, o comércio escapava. Mercadores de São Tomé, a ilha portuguesa no golfo da Guiné, mandavam pombeiros (agentes que compravam gente no interior) direto às feiras das províncias. A carta de 1526 descreve o resultado com as palavras do rei:
“Cada dia os mercadores levam nossos naturais, filhos da terra e filhos de nossos fidalgos e vassalos e nossos parentes, porque os ladrões e homens de má consciência os furtam com desejo de haver [...] mercadorias desse reino.” Afonso I do Congo, carta a João III, 6 de julho de 1526 (grafia modernizada) |
Afonso não pediu o fim de toda compra de escravos: pediu que Portugal respeitasse a lei do Congo sobre quem podia ser vendido.
A distinção pesa. O reino tinha cativos de guerra e os vendia; o protesto era contra o rapto de livres e contra a perda de controle da corte sobre o próprio comércio.
A comissão que Afonso anunciou em outubro de 1526 tinha três nomes: Dom Pedro Manipunzo, Dom Manuel Manissaba e Gonçalo Pires. Toda pessoa comprada no reino devia passar por eles antes de descer ao porto, e quem fosse livre voltava para casa. Não há registro de quantos foram soltos por essa inspeção, nem de quanto tempo ela funcionou: as cartas posteriores do rei não voltam ao assunto com números.
João III respondeu sem atender. Em carta ao rei congolês, observou que o Congo não tinha outra mercadoria que interessasse a Portugal. Afonso governou até 1542, e o tráfico pelo porto de Mpinda continuou sob os sucessores dele.
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